″A origem da crise energética está no subinvestimento e não na guerra″

″A origem da crise energética está no subinvestimento e não na guerra″

Andy Brown, CEO da Galp

 © Rita Chantre / Global Imagens

Dinheiro VivoAlexandra Costa

05 Novembro, 2022 • 07:03

A crise energética ainda está para durar e a Europa está especialmente vulnerável. É preciso investir em maior quantidade e velocidade. A era da energia barata acabou. Estas foram as mensagens-chave que Andy Brown, CEO da Galp, deixou, numa entrevista ao Dinheiro Vivo, realizada à margem da Web Summit, onde o responsável participou no painel “Energy in Europe: What”s next?” (Energia na Europa: o que se segue?, em tradução livre).

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No que se refere à crise energética que a Europa está a atravessar, a “culpa”, para Andy Brown, inside mais no subinvestimento do que na guerra na Ucrânia. É verdade que a Europa está a apostar nas energias renováveis e no hidrogénio, no entanto, é preciso avançar para a “execução” dos vários planos e programas anunciados. Mais precisamente, é preciso trabalhar mais “duro” – diga-se eficazmente – no licenciamento e nos incentivos.

Estão a tomar-se as decisões corretas: diminuir a procura, aumentar o armazenamento, mas durante o inverno – que não se sabe o frio que irá fazer-se sentir – “o armazenamento vai diminuir”. O CEO da Galp prevê que isso significa que vai ser muito difícil conseguir “reconstruir” o armazenamento no próximo ano. “Vamos ter, pelo menos, dois invernos difíceis”, antevê.

A maior dificuldade será conseguir manter o mercado estável e garantir que as pessoas conseguem pagar as suas faturas energéticas. Sendo que, na opinião de Andy Brown, a resposta a esta questão está no investimento. Mais investimento nas energias renováveis. Principalmente, porque temos de perceber que a transição energética – a par das alterações climatéricas – é um problema a longo termo. Que só se resolve com investimento em massa.

“O mundo precisará de investir o dobro em energia face ao que investe hoje”, afirma convicto Andy Brown, acrescentando que empresas como a Galp têm de se chegar à frente. Tem de lhes ser permitido que gastem o dinheiro que fazem no futuro da energia.

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Um futuro que depende do investimento, mas também de inovação e de colaboração. “As soluções de energia do futuro ainda não foram inventadas”, afirmou, acrescentando que, por isso mesmo, é tão importante a presença em eventos como a Web Summit. Isso e ter um ambiente que fomente a inovação, o aparecimento de novas ideias e conceitos.

Futuro das renováveis

Na próxima semana decorre a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP27. Andy Brown receia que nesse evento as atenções se foquem mais na segurança energética do que na sustentabilidade. Um erro crasso, defende. Pelo que o CEO da Galp faz um apelo para que governos, empresas e a comunidade se juntem e trabalhem em conjunto. Sendo que, agora, o importante é a execução. Já no que concerne aos governos português e espanhol, o importante é facilitar os investimentos e as licenças, disponibilizar o melhor framework onde “possamos atrair todo o investimento e os projetos que necessitamos para criar este futuro”, explicou, sublinhando que existe o dinheiro e a vontade, “só precisamos da framework para que possamos investir neste mundo da energia”.

Mas a Europa por si só não consegue resolver a questão da sustentabilidade. O gestor acredita que na COP27 se irá abordar a African Summit e como os países desenvolvidos podem liderar a transição para as energias renováveis. “Tenho algum receio de que apenas falem do sistema de compensação”, de que se aborde a questão dos pagamentos aos países em desenvolvimento porque “há mais catástrofes”. “Sim, isso tem de ser feito, mas não deveria ser o centro do debate”, refere.

Para Andy Brown, a discussão tem de se centrar na criação de um futuro sustentável e do futuro sistema energético.

Quanto ao papel da Galp nesse futuro, o responsável lembrou que a empresa será neutra em carbono em 2050, com o negócio totalmente assente em energia e combustíveis renováveis. Uma mudança completa de paradigma e de negócio.

“Hoje estamos a gastar metade do nosso dinheiro nas renováveis e, com o tempo, imagino que esse valor aumente”, afirmou. Ao longo do tempo, a Galp vai descarbonizar-se. O que não significa que “deixemos de vender o combustível que faz hoje movimentar Portugal”, mas sim, significa que “precisamos de nos focar no carregamento dos veículos elétricos, no hidrogénio, na cadeia de valor das baterias, entre outras soluções”.

“A Galp tem o duplo desafio de manter Portugal em movimento – porque ainda estamos assentes num sistema de combustíveis fósseis – mas também desenvolver as futuras soluções de energia que o mundo precisará”. Significa que não pode haver um abandono total da distribuição dos combustíveis fósseis. “Vemos que o futuro vai ser descarbonizado, sabemos que vamos ter de arranjar soluções técnicas, mas reconhecemos que as pessoas em Portugal continuam a viver as suas vidas em torno dos combustíveis fósseis, por isso, não podemos abandonar essa responsabilidade, temos de ser parte dessa responsabilidade”, constatou o administrador.

Podem parecer problemas quase insolúveis, mas, para Andy Brown, são tempos excitantes. Porque, como o próprio refere, o mundo normalmente só lida com uma crise de cada vez. E agora estamos a lidar com duas crises em simultâneo: a crise energética e a climatérica. A que se junta a guerra na Europa. No entanto, lembra, com a crise surgem oportunidades. “Mas apenas quando as pessoas sentem que estão preparadas para fazer sacrifícios para que a mudança aconteça”, afirma. E quando fala em sacrifícios, o CEO da Galp está a referir-se ao custo da energia.

“Se a ideia é a de que a energia vai permanecer tão barata e conveniente como foi no passado, lamento, mas isso não vai acontecer”, afirma, acrescentando que vai ser mais cara, e vai implicar uma forma diferente de consumo. “Vamos ter de nos habituar a um mundo diferente”, conclui, remetendo para algo que já tinha referido no painel em que participou: “Acho que estamos a entrar num período em que a energia barata vai deixar de existir. Haverá alterações maciças aos nossos hábitos de consumo e na forma como utilizamos energia, e teremos de nos habituar à imensa volatilidade”.